A utilização dos media em idade pediátrica – recomendações

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Nos últimos anos, os media – interactivos como a internet, as redes sociais e os videojogos, ou não interactivos, como a televisão e o cinema, hoje disponíveis através de um número crescente de dispositivos (televisão, computador, telemóvel, tablet, consolas), ocupam uma parte importante da vida das crianças e adolescentes.

A par da grande expectativa gerada em torno do seu potencial educativo, sobretudo daqueles com potencial interactivo, surgiram preocupações relativas aos seus potenciais efeitos nefastos sobre a saúde em geral e sobre neurodesenvolvimento em particular. Opiniões individuais acerca dos benefícios e prejuízos desta utilização são frequentemente veiculadas, mas nem sempre devidamente fundamentadas.

Neste sentido, e tendo em conta a evidência científica disponível, a Academia Americana de Pediatria (AAP) emitiu em 2016 uma série de recomendações, tanto para crianças em idade pré-escolar como para aquelas em idade escolar e adolescentes, que importa conhecer.

As crianças com menos de dois anos precisam de exploração e interacção social real, efectiva, com cuidadores fiáveis, para desenvolverem as suas competências cognitivas, linguísticas, motoras e socio-emocionais. Devido à imaturidade das suas competências simbólicas, de memória e de atenção, lactentes e crianças pequenas não conseguem aprender a partir os media como aprendem com os seus cuidadores. Além disso, têm dificuldade em transpor os conhecimentos ali adquiridos para a vida real. Os estudos dizem-nos que o principal factor para estas crianças pequenas aprenderem a partir dos media é a sua observação conjunta com os pais (a partir dos 15 meses) com explicação dos conteúdos às crianças.

Crianças com 3 a 5 anos podem beneficiar, sob o ponto de vista cognitivo, de literacia e de competências sociais, de programas de televisão bem concebidos – por exemplo a ‘Rua Sésamo’. Apesar de existirem inúmeras aplicações ditas ‘educativas’ para dispositivos móveis, a grande maioria não foi concebida sob a supervisão de educadores ou de especialistas em neurodesenvolvimento e a sua eficácia permanece por comprovar. Nestas idades, a estimulação das competências cognitivas superiores e das funções executivas essenciais ao sucesso académico como a persistência em tarefa, o controlo dos impulsos, a regulação emocional e o pensamento criativo e flexível, é melhor conseguida através de brincadeiras não estruturadas e sociais (não digitais) e através da interacção compreensiva entre pais e filhos. No que concerne aos livros digitais – ebooks – eles devem ser vistos/lidos em conjunto com os pais, de modo similar ao recomendado com os livros impressos.

São várias as preocupações associadas ao uso inapropriado dos media. A evidência científica actual já comprovou que a utilização massiva dos media em idade pré-escolar está associada a um pequeno mas significativo aumento no índice de massa corporal, com risco acrescido de obesidade. Isto poderá dever-se a uma maior exposição a anúncios sobre comida e a comer e ver televisão em simultâneo, o que diminui a atenção para os sinais de saciedade.

A duração aumentada da exposição aos media e a presença de televisão, computador ou dispositivo móvel no quarto na infância precoce estão relacionadas com menor duração de sono por noite, o que decorre da exposição a conteúdos estimulantes mas também da disrupção da secreção da melatonina – a ‘hormona do sono’ – pela exposição à luz azul emitida pelos ecrãs.

A nível neurodesenvolvimental, são inúmeros os estudos que comprovam associação entre um tempo de ecrã excessivo na infância precoce e menores competências cognitivas, linguísticas e sociais/emocionais, provavelmente decorrentes de uma menor interacção entre pais e crianças quando a televisão está ligada e a uma pior dinâmica de famílias com elevado uso dos media. Um início precoce de utilização dos media, um maior número cumulativo de horas de utilização de media, e exposição a conteúdos não selecionados são factores independentes para menor desempenho das funções executivas em idade pré-escolar. É claro que o teor dos conteúdos observados é fulcral: num estudo, a mudança de conteúdos violentos para conteúdos educativos e pro-sociais condicionou melhorias comportamentais significativas em rapazes de baixo nível socioeconómico. Por outro lado, características individuais da criança poderão também ser importantes: um consumo excessivo de televisão é mais provável em crianças com um temperamento mais difícil e problemas de autorregulação e por outro lado é mais provável que seja dado um dispositivo móvel a crianças com problemas emocionais para que se acalmem.

A AAP sublinha que ter a televisão ligada conduz a menor número de interacções, tanto verbais como não verbais, entre os pais e as crianças, e prejudica o próprio jogo infantil. Porque a utilização dos media pelos pais é um preditor dos hábitos que as crianças terão a este nível, a redução da sua utilização pelos pais e a promoção das interacções entre pais e crianças é uma forma importante de promoção de comportamentos adequados.

A AAP conclui que a evidência científica actual permite recomendar a limitação do uso de media digitais a não mais do que uma hora por dia em crianças dos 2 aos 5 anos, disponibilizando-lhes tempo para outras actividades importantes para a sua saúde e neurodesenvolvimento e fomentando o estabelecimento de hábitos de consumo dos media associados a um menor risco de obesidade futura. Por outro lado, os pais devem ser estimulados a alterar os conteúdos para aqueles com teor educativo e pró-social e a acompanharem as crianças durante o seu consumo, de modo a que estas consigam tirar maior proveito do que veem. É recomendado o estabelecimento de espaços e períodos de tempo livres de media, assegurando que o seu uso não conflitua com o sono, exercício, jogo, leitura em voz alta e interacções sociais.

De um modo prático, e tendo em conta a evidência científica disponível, a AAP recomenda:

  • Antes dos 18 meses: a utilização de ecrã deve limitar-se a videochamadas para comunicação com familiares e amigos que estão distantes.
  • Entre os 18 e os 24 meses: se os pais quiserem introduzir a utilização de media digitais deverão escolher programas/aplicações educativos de elevada qualidade e observá-los/utilizá-los em conjunto com a criança, conversando com ela, ajudando-a a perceber o que estão a ver e a transpor o conteúdo destas para o quotidiano da criança.
  • Crianças com 2 a 5 anos deverão utilizar os media digitais no máximo uma hora por dia, recorrendo a conteúdos de elevada qualidade e em utilização conjunta com os pais, promovendo a aprendizagem e a interacção entre ambos.
  • Os media digitais devem ser excluídos durante as refeições e uma hora antes de dormir, e devem ser desligados quando não estão a ser utilizados (ou seja, é desaconselhada a sua utilização ‘de fundo’/ ‘de companhia’).

A AAP sublinha que os pais não se devem sentir pressionados para a introdução precoce das novas tecnologias aos seus filhos, pois sendo tão intuitivas as crianças rapidamente aprendem a utilizá-las, em casa ou na escola. Recomenda ainda que sejam evitados programas demasiado rápidos – até porque crianças desta idade não os compreendem, bem como aplicações com demasiados factores de distracção e conteúdos violentos. É ainda feito um alerta para a importância de não utilizar os media digitais como forma única de acalmar a criança: apesar de poder ser uma estratégia utilizada em situações esporádicas, a sua utilização constante para acalmar a criança poderá comprometer o desenvolvimento das suas competências de autocontrolo.

No que concerne às crianças em idade escolar e aos adolescentes, a evidência científica aponta para a existência tanto de benefícios como de riscos da utilização dos media.

Os benefícios incluem a exposição a novas ideias e a aquisição de conhecimentos, oportunidades para interacção social, oportunidades de apoio (através nomeadamente de redes de apoio a famílias/crianças com determinada patologia), e oportunidades para aceder a conteúdos promotores da saúde (como cessação tabágica ou alimentação equilibrada).

Entre os riscos destacam-se efeitos negativos a nível da saúde, sobretudo do peso (está bem estabelecido o aumento do risco de obesidade e ter televisão no quarto, por exemplo) e do sono (uma maior utilização de media e a utilização de dispositivos móveis no quarto condiciona um maior risco de distúrbios do sono e, subsequentemente, de pior desempenho académico), o desenvolvimento de uma forma de dependência (reconhecida no Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais – DSM-5 – como ‘Perturbação de jogo pela internet’), a exposição a conteúdos e contactos incorrectos, inapropriados ou inseguros (a exposição através dos media a consumo de álcool, tabaco ou comportamentos sexuais está associada a um início precoce destes comportamentos; tanto o cyberbullying como o sexting [transmissão electrónica de imagens de nus ou seminus ou de mensagens de texto com conteúdo sexualmente explícito] são uma realidade cada vez mais presente na sociedade). O comprometimento da privacidade e confidencialidade são também riscos presentes.

A AAP reconhece que os efeitos dos media são multifactoriais e dependem do tipo de media, do tipo de utilização, da quantidade e extensão da utilização, bem como das características individuais da criança ou adolescente.

Tendo em conta estes aspectos, a AAP recomenda às famílias que:

  • Desenvolvam um “Plano Familiar de Utilização de Media” que contemple o tipo e a quantidade de media utilizados, que comportamentos nos media são adequados para cada criança/adolescente e também para os pais, incluindo:
    • Estabelecimento de limites consistentes relativos ao número de horas por dia de utilização dos media, bem como relativos ao(s) tipo(s) de media utilizado(s).
    • Promoção da a ocupação diária do tempo recomendado em actividade física (1 hora) e em sono (8 a 12 horas, consoante a idade).
    • Evicção no quarto de dispositivos media (TV, computadores, telemóveis, consolas) e da exposição a ecrãs uma hora antes de dormir.
    • Desencorajamento da utilização de media durante a realização de trabalhos de casa ou estudo.
    • Designação de períodos (por ex. refeições) e espaços (quartos) livres de media, promovendo a realização de actividades em família como leitura, conversa e jogos em conjunto.
    • Comunicação destas orientações a outros cuidadores, como avós ou amas, para que também nesses contextos sejam cumpridas de modo consistente.
  • Visualizem os conteúdos dos media com a criança ou adolescente, promovendo a aprendizagem e a criatividade, partilhando as experiências com a restante família e a comunidade.
  • Conversem por rotina com a criança ou adolescente sobre cidadania e segurança, incluindo o respeito pelos outros online e offline, sobre o cyberbullying e o sexting, sobre os cuidados acerca das solicitações online, e a necessidade de evitar comunicações que possam comprometer a privacidade a segurança pessoais.
  • Desenvolvam activamente uma rede de adultos de confiança (ex. tias, tios, avós, amigos) que possam interagir com a criança ou adolescente através dos media sociais e a quem este possa recorrer em caso de dúvidas.

Sublinha a AAP que a evidência científica é clara quanto à necessidade de, para a promoção da saúde e bem-estar de crianças, manter uma actividade física adequada, uma alimentação saudável, uma boa higiene de sono e um ambiente social afectuoso e estimulante e tempos afastados dos media. Neste sentido, e considerando as especificidades de cada família, a AAP propõe a elaboração de um “Plano Familiar de Utilização de Media”, para o que disponibiliza uma plataforma, com versão em inglês (https://www.healthychildren.org/English/media/Pages/default.aspx) e em espanhol (https://www.healthychildren.org/Spanish/media/Paginas/default.aspx ), que ajuda as famílias a conciliarem, de acordo com as suas especificidades e tendo em conta o estadio neurodesenvolvimental da criança/adolescente, o tempo de utilização dos media e outras actividades como a interacção social ‘ao vivo’, a actividade física, a alimentação e o sono.

Sendo certo que os media constituem uma poderosa influência na saúde orgânica, neurodesenvolvimental e comportamental das crianças e adolescentes, é inequívoco que subestimá-la é perder uma importante oportunidade para ajudar a crescer de um modo saudável crianças e adolescentes. Estas orientações, devidamente fundamentadas no conhecimento científico actual, ajudam-nos a não desperdiçar esta oportunidade.

Media and Young Minds. Council on Communications and Media. Pediatrics. 2016 Nov;138(5).

Media Use in School-Aged Children and Adolescents. Council on Communications and Media. Pediatrics. 2016 Nov;138(5).

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